Conto – Engenheiro de Manutenção Ótica
Um Engenheiro de Manutenção Ótica — ou, para simplificar, um oftalmologista — foi chamado ao Liceu D. Carlos, onde só é permitido frequentarem crianças daltónicas.
Chamaram-no porque suspeitavam da presença de um impostor: uma das crianças parecia ver as cores com facilidade, já que escolhia muito bem os legumes da sopa que não queria comer. Hortaliça, não vai. Cenoura, vai. Couve-lombarda, não vai.
Quando o engenheiro de manutenção ótica – ou simplesmente, oftalmologista – inspecionou a criança, percebeu não só que ela não era realmente daltónica, como também que lhe faltava trocar as pastilhas dos travões e o filtro de partículas.
Então o engenheiro levou a criança ao seu amigo Zé Carlos, dos melhores mecânicos de crianças em todo o velho oeste.
— Ui, este menino daltónico também está com a suspensão toda lixada — referiu o meu amigo Zé Carlos.
— Mas ele não é daltónico — disse o engenheiro — é apenas um impostor.
— Ah, então isso não é comigo — respondeu Zé Carlos. — É com o Carlos Zé do Ferro Novo. Eu, Zé Carlos, só reparo crianças daltónicas, zarolhas e manetas. Enquanto o Carlos Zé faz todo o resto de reparações durante os fins de semana e feriados, arroz de pato às terças e quintas e preside à junta de freguesia à segunda, quarta e sexta-feira.
Ao ouvir isso, o engenheiro ficou furioso com o Carlos Zé, porque quem deveria ser presidente da junta às quartas-feiras era ele. Então, apertou de novo o puto ao atrelado da carrinha e partiram estrada fora até à casa do Carlos Zé.
O engenheiro gritou-lhe:
— Olha lá, ficaste com o meu mandato durante a quarta-feira; agora vou comer a tua amante, porque sei muito bem que tu andas metido com a minha irmã.
Ao que Carlos Zé retorquiu:
— Se tu te atreves a comer a tua irmã, eu rebento-te um olho.
Assim prometido, assim cumprido.
Tive de voltar ao Zé Carlos porque fiquei zarolho, mas ao menos aquele Carlos Zé não se ficou a rir da minha cara.
Gabriel Leal Vaz.